Incêndios O projecto de reconstrução e ampliação da casa da família Fernandes foi aprovado pelo comité de acompanhamento. Está tudo a postos para avançar com a obra, que vai custar 126 mil euros

O fogo foi implacável. Ceifou vidas, deixou muitos sem tecto, queimou árvores e tudo o que encontrou pelo caminho. ‘Pintou’ o horizonte em tons de cinzento e castanho. Quem circula na Estrada Nacional 236, entre Figueiró dos Vinhos e Castanheira de Pera, só vê terra árida e queimada, de um lado e do outro. Desolador. Mais desolador se torna ao chegar à zona habitacional, onde várias casas foram tomadas pelas chamas e não resistiram, deixando sem tecto algumas famílias. É o caso da família Fernandes, cuja residência está à face daquela estrada nacional, via rodoviária onde 47 pessoas morreram dentro dos seus carros ou per to deles, quando procuravam, em desespero, uma saída segura das chamas.
Da família, composta por sete elementos, todos estão bem e não sofreram sequelas do incêndio. A casa foi atingida e metade do telhado ruiu, deixando a família numa situação difícil, já que não tem meios de subsistência para suportar a despesa da reconstrução. É esta a família que o projecto aveirense ‘Castanheira Renasce’ se propôs ajudar. E agora, qual prenda de Natal, surge a ansiada resposta. O projecto de reconstrução e ampliação da sua casa foi aprovado pelo comité de acompanhamento que deu ‘luz verde’ para avançar com as obras, orçadas em mais de 126 mil euros.
Reunidos na Câmara Municipal de Castanheira de Pera, sob o olhar atento da presidente da autarquia, Alda Carvalho, os promotores do projecto, liderado por Sérgio Chéu (da empresa aveirense Smart Vision) e do qual o Diário de Aveiro (jornal associado do Diário de Leiria) faz parte desde a primeira hora, apresentaram o trabalho até agora realizado no âmbito do projecto.

Casa adaptada às reais necessidades da família

Mais do que reconstruir a habitação danificada pelo incêndio, o líder do projecto, ao conhecer a família, nas semanas seguintes à tragédia, percebeu que as suas carências eram mais complexas, já que o espaço existente não satisfaz as reais necessidades. Um dos elementos da família, por exemplo, movimentase numa cadeira de rodas e a casa não está adaptada às suas necessidades. Então, de uma ‘simples’ reconstrução, o projecto passa a dirigir atenções para uma ampliação e iniciou contactos pa ra que tal desiderato pudesse concretizarse, nomeadamente a cedência de terrenos contíguos à casa, para que esta pudesse ser ampliada. Um processo jurídico e administrativo que “levou o seu tempo” e os promotores demoraram alguns meses a ultrapassar todos os obstáculos que foram surgindo. E eis, agora, que a boa nova surge: o projecto foi aprovado. E tal como dizia um dos elementos ligados ao projecto: “Agora é trabalhar”.

Ampliação custa mais de 126 mil euros

“Acreditamos que podemos fazer algo diferente”, disse Sérgio Chéu, líder do ‘Castanheira Renasce’, que criou um site (castanheirarenasce.com) para o projecto poder ser acompanhado a par e passo, de uma forma “totalmente” transparente. A família que vai receber esta ‘nova’ casa é composta pelos seguintes elementos: Eva Fernandes (solteira, operária florestal), Gracinda Carvalho (viú va, pensionista), Nuno Fernandes (casado, operário florestal), Paula Freitas (casada, desempregada), Vânia Fernandes (filha, estudante), Maria Santana (viúva, pensionista) e Rui Carvalho (solteiro, pensionista por invalidez).
A casa da família Fernandes vai passar a estar dividida de acordo com os diferentes núcleos: de um lado pai, mãe e filha; do outro os restantes membros, sendo que ‘no meio’ da habitação estarão localizados os espaços comuns, como a sala e cozinha.
Para além desta divisão equilibrada, as obras vão permitir a ampliação de uma das casas de banho para uso do familiar que tem de usar cadeira de rodas. Após a construção, faz parte do projecto ajudar na ‘adaptação’ da família ao novo espaço e o acompanhamento necessário para que saibam como cuidar do novo bem. As obras estão orçamentadas e custam, segundo o caderno de encargos, mais de 126.500 euros, sendo que o projecto foi realizado pela Cimave, empresa envolvida no projecto. No final da apresentação, que mereceu a aprovação consensual, Aniceto Carmo, da Cimave Construções, dizia, em desafio: “Agora é trabalhar”. Também Alda Carvalho, presidente da autarquia, sublinhou que o projecto é digno e que é um exemplo de como “uma tragédia poder ser encarada como uma oportunidade”. “Estamos a 200 por cento ao lado do projecto”, afiançou a autarca de Catanheira de Pera, na reunião do comité de acompanhamento, de que o Diário de Aveiro (DA) faz parte.

Voltar a Junho [de 2017] e às memórias de um incêndio que nunca mais vão esquecer não foi fácil para Nuno Fernandes

Nicolas Wallaert, directorgeral da Cofidis Portugal, parceiro do projecto e membro daquele comité disse que, logo que o incêndio de Junho [de 2017] tomou proporções de tragédia, todos, na empresa, sentiram que “era importante fazer alguma coisa”, mas não queriam “fazer apenas” qualquer coisa, defenden do reconhecer no ‘Castanheira Renasce’ uma “dimensão social muito importante” na qual a empresa que lidera se revê e por isso apoia a iniciativa de “corpo inteiro”.

Família satisfeita

Depois da reunião na sede da autarquia de Castanheira de Pera, o comité de acompanhamento foi visitar a família Fernandes para lhes dar a ‘notícia’. “Já estávamos à espera há muito tempo”, ainda desabafou Nuno Fernandes, reconhecendo, contudo, que vão receber bem mais do que esperavam. “Graças a Deus que tudo correu bem”, disse, afirmandose satisfeito com o resultado. Voltar a Junho e às memórias de um incêndio que nunca mais vão esquecer não foi fácil para Nuno Fernandes. “Foi o pior dia da minha vida”, disse ao DA, desabafando que agora o que o assus ta são as tempestades. Como a ‘Ana’, no início de Dezembro. “Foi um susto muito grande; pensava que a lona [colocada entretanto com o apoio de um vizinho amigo para evitar que chovesse dentro de casa] ia voar e chover aqui dentro”, disse. Agora que o projecto foi aprovado e toda a tramitação legal está a ser realizada para que o início das obras se faça o quanto antes, os promotores do projecto solidário ‘Castanheira Renasce’ estão a reunir as dádivas prometidas por empresas e particulares.

Entre as empresas que apoiam esta iniciativa de cariz solidário estão algumas ligadas à construção civil, como a Gres Panaria ou a Primagera, que vão apoiar com a doação dos materiais necessários para a construção e reconstrução da casa. Também apoia a OLI, em tudo o que diga respeito a casas de banho.
São alguns exemplos, mas as entidades que queiram aderir a apoiar esta iniciativa, ainda o podem fazer, porque toda a ajuda é bemvinda. Seja em bens ou até com mão de obra.
No escalonamento previsto, a construção deverá avançar em breve, sen do que as empresas que se associaram à iniciativa ainda pretendem envolver os seus funcionários para “arregaçarem as mangas” e “meterem a mão na massa”, literalmente, ajudando a pintar, colocar tijolos, carregar mobília… “tudo o que for preciso”, dizia no final da reunião um dos promotores.
E o DA vai estar presente em todos estes passos, para relatar cada momento até ao final. O mesmo é dizer, até que a família Fernandes ‘entre’ na nova casa.

Ana Sofia Pinheiro
Diario de Leiria


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